Na África, alunos de universidades privadas estão diante de uma complexa combinação de oportunidade e exploração

Parece que o poder simbólico de ser estudante universitário em países que, por vezes, têm apenas 1% de taxa de matrícula na educação superior compensa todas as insuficiências registradas no setor privado.

Louise Morley
Professora do Centre for Higher Education and Equity Research, Universidade de Sussex, Reino Unido. E-mail: l.morley@sussex.ac.uk

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Seria errado sugerir que todos os desafios de qualidade dizem respeito apenas ao setor de ensino superior privado em países de baixa renda. A expansão sem financiamento e a falta geral de recursos humanos e materiais também são inimigos de padrões de qualidade em todo o setor público. No entanto, é pertinente concentrar-se no setor privado em rápida expansão em todo o mundo. A crescente ânsia social pelo ensino superior e as restrições fiscais fizeram com que o Estado, em muitas realidades nacionais, não mais atenda às demandas; e o setor privado é visto como uma resposta aos desafios de capacidade do sistema, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento.

 

A ideologia de mercado do setor privado é muitas vezes percebida como uma contradição para os valores fundamentais da educação para todos, e críticos temem que isso venha a contribuir para uma formação elitista e para exclusões sociais. Os temores tendem a concentrar-se na mercantilização do conhecimento, a mudança dos princípios, do currículo e dos valores da educação superior, além de uma possível abdicação da responsabilidade do Estado e da crença de que novos provedores estejam comprometendo qualidade e padrões ao instalar verdadeiras fábricas de diplomas, mal e porcamente reguladas. O setor privado também é visto como ameaça à diversidade social e à igualdade de oportunidades, com a possibilidade de excluir estudantes dos estratos socioeconômicos mais desfavorecidos.

 

Ampla participação na educação superior em Gana e na Tanzânia

No estudo empírico recente “Widening Participation in Higher Education in Ghana and Tanzania” (http://www.sussex.ac.uk/wphegt/), verificou-se que o ensino superior privado desempenhou um papel contraditório na ampliação de acesso e oportunidades. O projeto foi um estudo multimétodo de duas universidades públicas e duas particulares. Duzentas entrevistas de história de vida com estudantes exploraram as suas experiências de ensino primário, secundário e superior, além de seus planos e aspirações futuras. Duzentos funcionários da universidade e formuladores de políticas foram entrevistados a respeito dos empecilhos e facilidades aos estudantes não tradicionais. O projeto produziu dados estatísticos sobre os padrões de participação, apresentados em Equity Scorecards, e recolheu evidências para construir a teoria sobre aspectos socioculturais do ensino superior em Gana e na Tanzânia. As três principais estruturas de desigualdade incluídas nos Equity Scorecards foram sexo, status socioeconômico e idade.

 

Uma descoberta surpreendente foi a maneira diferente pela qual a qualidade e os padrões nas universidades privadas foram representados por funcionários e alunos. Os funcionários muitas vezes enfatizaram qualidade, instalações amplas e recursos, ao passo que muitos alunos relataram falta e déficit, especialmente em relação às tecnologias de informação e comunicação e às instalações da biblioteca. A sensação de massificação também foi amplamente discutida pelos alunos, com relatos de entre 800 e 1.000 estudantes em algumas classes!

 

As “injustiças espaciais” levaram a injustiças cognitivas, de acordo com os alunos, que argumentaram que essa razão entre professor/aluno tornava desigual sua oportunidade de aprender e participar de alguma maneira significativa na sala de aula.

 

A área que pareceu atrair a maior preocupação foi a avaliação. Isso foi frequentemente relatado pelos alunos em um contexto de instabilidade e injustiça. Foi também visto como demonstração de poder, com potencial para corrupção, exploração e assédio sexual. Por exemplo, a falta de procedimentos de avaliação de qualidade, incluindo a possibilidade de revisão de notas, fez com que alguns professores inescrupulosos se oferecessem para melhorar notas em troca de favores sexuais ou financeiros.

 

Apesar de pagar mensalidades, a tendência era os alunos não terem os direitos básicos do consumidor, incluindo critérios de qualidade, os conhecidos “acordos de nível de serviço” e finalmente o direito a recurso. Os alunos se queixaram de nunca saberem por que receberam notas diferentes. Quando buscaram explicações, foram orientados a fazer uma reclamação formal. No entanto, quando tentaram reclamar, não existiam procedimentos ou mesmo formas para levar a cabo sua demanda. Houve relatos de horários caóticos de exames, com alguns alunos agendados para redigir dois exames ao mesmo tempo. O resultado, é claro, foi o fracasso. A avaliação exemplificou algumas das tensões quando questões educacionais colidem com considerações financeiras: vários estudantes relataram como foram expulsos de exames ou tiveram o acesso recusado aos resultados de suas provas por causa do não pagamento ou do atraso na quitação de taxas.

 

Perdas e ganhos

Enquanto muitos estudantes reclamaram de suas universidades privadas tanto pelo status quanto pelos serviços efetivamente prestados de segunda classe, outros viram essas instituições provendo uma “estrutura de oportunidades” para quem tinha sido abandonado pelo Estado. Na opinião desse grupo, qualquer acesso ao ensino superior é melhor do que nada, pois facilita que se “tornassem alguém”, com vantagem posicional e potencial de recompensas materiais de longo prazo. Isso foi especialmente perceptível em estudantes de comunidades rurais pobres que foram motivados a ingressar no ensino superior, uma vez que representava uma fuga da pobreza. Mais mulheres e estudantes maduros também estavam entrando nas duas universidades privadas do que nas duas universidades públicas estudadas – novamente levantando questões sobre se o setor privado está abrindo novas oportunidades para grupos sociais anteriormente excluídos. Outra questão é se estudantes socialmente menos privilegiados estão sendo desviados para as instituições de menor prestígio.

 

O desenvolvimento do ensino superior privado levanta questões sobre valores – em relação ao dinheiro e como os alunos são avaliados. O setor privado representa oportunidades aprimoradas, orientadas por demanda, por “oportunismo de mercado”, ou será uma complexa combinação de oportunidade e exploração? Parece que o poder simbólico de ser estudante universitário em países que, por vezes, têm apenas 1% de participação compensa todas as insuficiências registradas em universidades privadas. Muitos dos alunos dessas universidades eram de origem socioeconômica baixa e tinham um histórico de abandono pelo setor educacional. No entanto, parece que muitas universidades privadas estão operando bem abaixo dos padrões mínimos de qualidade, sem nenhum senso de direitos estudantis ou acordos de nível de serviço. Isso precisa urgentemente mudar para interromper o círculo vicioso da pobreza, as baixas expectativas das instituições de ensino e os baixos padrões de entrega.

 

Fonte

https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/international-higher-education/na-africa-alunos-de-universidades-privadas-estao-diante-de-uma-complexa-combinacao-de-oportunidade-e-exploracao

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