Interação entre cultura e ensino superior no Brasil

Interação entre cultura e ensino superior no Brasil

Interação entre cultura e ensino superior no Brasil.
João Augusto de Lima Rocha (Universidade Federal da Bahia)

1. Introdução

A educação, mais do que qualquer outra atividade, deveria merecer contínua atualização, em razão da necessidade de que seja influenciada pelas mudanças cada vez mais rápidas da vida moderna.

É reconhecida como fundamental a responsabilidade da universidade com a atualização da educação, mas a formação nacional brasileira, marcada por notáveis vazios, em decorrência do processo de colonização, não incluiu como     prioridade a introdução da universidade. Faz-se um exame do significado cultural do atraso da criação da universidade brasileira e da fraca percepção da sociedade para o significado do ensino superior no proceso cultural e educacional brasileiro.

A evolução da instituição universidade é examinada, na história, enfatizando-se sua conexão com a realidade cultural e política da época do surgimento dos estados nacionais, processos marcados por coalizões e enfrentamentos entre os principais atores, algo que guarda semelhança como o que ocorre na atualidade.

Destaca-se, também, que a evolução do ensino superior no Brasil, distintamente do que ocorreu na maioria das nações americanas, deu-se basicamente através da criação de instituições isoladas, muitas das quais foram se juntando, para a formação das universidades. A falta do projeto integrado de universidade é um dos graves defeitos que ainda persiste na construção do ensino superior brasileiro. O agravamento desse quadro é gritante, ao verificar-se o quanto as matrículas avançaram, particularmente nos dois mais recentes anos, em instituições de ensino com ações em bolsas de valores, cujo caráter notoriamente mercantilista introduz instabilidade e precarização do trabalho, no ambiente de elevada especulação financeira, agravada pela grave crise vivida hoje pelo capitalismo.

2. A universidade na história

A universidade ocidental, surgida no final da Alta Idade Média, quase simultaneamente com o aparecimento dos estados nacionais, veio a se consolidar, com o tempo, como singular instituição social. Segundo Anísio Teixeira, a singularidade está em que ela se afirma, na história, como a principal instituição encarregada do processo contínuo de organização e reorganização da cultura, cultura considerada como tudo que o ser humano produz em sociedade.

Decorre dessa concepção que o atraso na criação da universidade é um importante fator para a nossa pouca percepção dos liames que unem cultura e universidade, o que resulta, no nosso caso, em uma espécie de desenraizamento entre universidade e nação, decerto responsável pela pequena importância que damos, no Brasil, até hoje, à construção de um sistema nacional de ensino superior.

Iniciada no ambiente das catedrais e mosteiros católicos, em torno do século X, a universidade encarrega-se, originalmente, da recuperação e da conservação de textos do passado. A referência, para tal recuperação é a Grécia Antiga que, no século V a. C., atingiu o auge em avanços no conhecimento, tanto que muitos situam essa fase como precursora da universidade ocidental.

Após a destruição da Biblioteca de Alexandria, em 48 a. C., devem-se aos árabes a recuperação de grande parte dos registros lá preservados, com destaque para a obra de Aristóteles (384 a.C – 322 a.C.). No ambiente dos mosteiros, desde antes do século XI, já ocorria o trabalho dos copistas, de transcrição de textos antigos para o latim. Foi nesse ambiente que se deu a construção da cultura da Escolástica.

No processo de transmissão da cultura do passado ao presente, foi o ensino a primeira tarefa atribuída à universitas que, desde seu início, até o século XIV, consolida-se como uma corporação de ofício especial, lugar da transmissão da experiência dos mestres artesãos para os aprendizes, em que saberes práticos eram ensinados com o objetivo, tanto de preservar o saber técnico existente, quanto aplicá-lo às necessidades práticas mais imediatas. De fato, a universitas é pioneira em uma atividade que, mais tarde, com a gradual incorporação do conhecimento científico à elaboração das técnicas, constitui o que chamamos, a partir do século XVIII, de tecnologia. A universitasdiferencia-se, portanto, das demais corporações de ofícios cujo foco principal era o monopólio do comércio, pois é para ela que convergem os sábios do tempo, um tempo em que ciência, filosofia e da religião ainda não possuíam demarcações muito nítidas.

No seu percurso medieval, a universidade vai se conformando à exigência da formação de quadros especializados que, afinal, são aqueles que iriam prover o suporte técnico cuja resultante é a superação do feudalismo pelo capitalismo. Isso porque a ação da universitas favorece a formação crescente de excedentes de produção nos domínios feudais, em decorrência do aperfeiçoamento de implementos de apoio às técnicas de preparação da terra para o plantio. A essa corporação especial deve-se, também, o surgimento de novas ocupações técnicas nos surgentes núcleos urbanos. A consequência mais marcante da criação de excedentes no campo é, precisamente, o florescimento das cidades. Então, na medida em que se dá o avanço do processo de urbanização, isso enseja a consolidação dos estados nacionais, e as universidades crescem e se espraiam por toda a Europa medieval.

Em síntese, ao estado nacional interessa o fortalecimento da universidade medieval, por conta de que ela contribui para o aperfeiçoamento dos quadros especializados de que ele necessita para sua expansão e consolidação. Simetricamente, também interessa à universidade o fortalecimento do estado, porquanto é isso que garante o suporte material para sua expansão e prestígio. O outro lado da moeda é o crescimento do anseio das comunidades universitárias por pensar autonomamente e dirigir a universidade, o que significa vislumbrar novos caminhos para a instituição e para a sociedade na qual se acha inserida; nessa dinâmica, cresce o acirramento de tensões entre a universidade, a igreja católica e o estado.

Assim, a universidade começa a pleitear a autonomia, cujo marco inicial é a luta renhida, levada na Universidade de Paris que, em meio a uma greve estudantil de dois anos, marcada por duro enfrentamento com a população do entorno, levou o Papa Gregório IX a editar a bula Universitas Parens Scientiarum, datada de 13 de abril de 1231, que insere os primeiros laivos de autonomia nos estatutos da universidade.

Em linhas gerais, a dinâmica da interação entre universidade, cultura e estado nacional, poderia prosseguir com a análise da evolução da universidade medieval para a universidade clássica, a qual inclui o período compreendido entre os séculos XVI a XVIII, em que a instituição entrou em franca decadência, na medida em que se operou o seu descolamento quase completo com a cultura de seu tempo. Atesta isso a constatação de que o crescente desenvolvimento experimentado pelas ciências na Europa, naqueles séculos, ocorreu praticamente à margem da universidade.

Somente no início do século XIX é que a Alemanha, ainda não unificada e em luta contra o jugo de Napoleão, elabora o plano de construção do estado nacional germânico, dentro do qual se a universidade renovada se inclui primordialmente, que tem na participação de Wilhelm Von Humboldt, que liderou a construção da Universidade de Berlim, a referência para o que hoje se denomina universidade moderna, com destaque para a presença da pesquisa entre suas atividades.

Até esse ponto do desenvolvimento da milenar instituição universitária, nada chegou, obviamente, a se incorporar ao processo de construção da educação brasileira, pois os poucos brasileiros que freqüentaram a universidade, na fase de colônia, tinham de se deslocar para Portugal.

Segue-se à universidade moderna a universidade contemporânea, marcada pela introdução das atividades de serviço e a ampliação territorial da ação de cada instituição, com base na ideia de multiversidade, com ênfase em atividades de pesquisa e de serviço, no interesse direto das comunidades situadas no entorno das universidades. Alfred North Whitehead (1861-1947), o filósofo e matemático britânico que atuou em Cambridge, no Reino Unido, e em Harvard, nos EUA, é considerado um dos principais mentores da chamada universidade de serviço, particularmente nesse último país. A ele se deve a formulação da ideia de universidade em ocorre a integração entre o ensino, a pesquisa e o serviço externo. Segundo (Whitehead, 1929), a universidade deveria absorver o anseio de progresso da sociedade e ser o lugar do encontro da imaginação com a experiência. A universidade contemporânea, para cuja conformação a reflexão dele muito contribuiu, deveria se envolver com a atualização das formas de reorganização da cultura, em consonância com os anseios da sociedade, termômetro para a garantia do apoio político do estado à continuidade temporal da instituição universitária.

3. A universidade chega tardiamente ao Brasil

O fato de o Brasil não ter passado pela sequência evolutiva da universidade, acima descrita, contribui para a falta de compreensão sobre o significado dela na dinamização do processo cultural nacional. Falta-nos o sentimento sobre a relação entre educação superior (pública ou privada) e a organização e reorganização da escola da cultura nacional, de que Anísio, genericamente, se refere. Para nós, a universidade parece ser uma instituição como qualquer outra, dentre tantas emperradas por uma burocratização que não está à altura do significado especial da universidade, sobre o qual Anísio Teixeira tanto nos chama a atenção. Segundo ele, os colégios jesuítas, desde cedo, ofereciam o ensino propedêutico às universidades de Coimbra e Évora, para onde iam poucos dos, assim chamados, portugueses nascidos no Brasil, que se desenvolviam na Metrópole, no seio de um mundo cultural distinto do nosso. Como esses portugueses nascidos no Brasil, tal como eram chamados os brasileiros que cursavam a Universidade de Coimbra, poderiam liderar um processo de construção das matrizes de nossa cultura? As matrizes de nossa cultura teriam que ser tratadas pela universidade centrada na realidade brasileira, do ponto de vista dos interesses do povo brasileiro. A esse respeito, vale observar que, para os primeiros cursos superiores, em Cirurgia e Anatomia, criados em nosso país, quando da chegada de D. João VI, em 1808, foram recrutados alunos que mal sabiam ler!  Mesmo com atraso, essa é a primeira vez em que esse dado cru da nossa realidade é enfrentado e superado pela “universidade”, bem ou mal introduzida no Brasil pela família real portuguesa, que para fugiu apressadamente para o Brasil, ante a perspectiva (que se concretizou) da tomada de Portugal por Napoleão Bonaparte.

Sobre os meandros da luta pela universidade, nos tempos do Brasil colônia, observa Anísio Teixeira:

Já nos referimos à resistência que o Brasil ofereceu à ideia de universidade. Habituando-se a somente tê-la na Metrópole, ao fazer-se independente viu reduzir-se o ensino superior a escolas especiais profissionais fora da universidade. Mas, ao mesmo tempo, buscou manter o ensino secundário acadêmico e humanístico. Como se preparariam os professores para esse ensino secundário? (Teixeira, 1994)

A falta de uma universidade prejudicaria a fixação das matrizes culturais da terra brasileira, e isso faria definhar todo o processo educativo, no Reino do Brasil, segundo Anísio. Pergunta-se, pois: será que a Universidade Brasileira, depois da proclamação da República, está se dando conta, na medida de nossas necessidades nacionais concretas, da conexão entre universidade, educação e cultura?

Só em 1934, com a organização da USP, mesmo que criada em meio ao  viciado processo de acresção de cursos superiores isolados, é que tivemos o primeiro lampejo de renovação, particularmente na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras. Em 1935, instala-se a primeira universidade moderna brasileira, a Universidade do Distrito Federal (UDF), no Rio de Janeiro, que desenvolvia atividades de pesquisa em todas as áreas, com destaque para a área de educação, em que a pesquisa era dirigida para o objetivo do aperfeiçoamento do sistema educacional do então Distrito Federal, dirigido pelo próprio Anísio até o final de 1935. Segundo ele:

A universidade somente será de pesquisa quando passar a reformular a cultura que vai ensinar. Pode parecer excessivo dizer-se que a cultura humana tem de ser reelaborada para ser ensinada. Isso, porém, é literalmente verdade. Se trata de uma cultura própria e já existente, a transição é uma revisão e uma adaptação, pois toda cultura é ela própria um processo dinâmico. Mas se desejo transmitir uma cultura nova, não a posso transmitir pondo o aprendiz em contato com os produtos dessa cultura, mas tornando possível ele aprendê-la pelo processo de sua formação, de modo que ele, de algum modo, a reinvente, inserindo-a em seu modo de pensar. (Teixeira,  1994)

Esse é o conceito chave da universidade moderna, que teve, depois, na Universidade de Brasília, em 1961, mais uma vez com Anísio Teixeira, junto com Darcy Ribeiro, a oportunidade de tentar reinstar-se no Brasil.

Do ponto de vista dos extratos médios da sociedade brasileira real, a ênfase na questão da universidade costuma ser colocada em relação ao atendimento da demanda das famílias por cursos superiores para seus filhos, no pressuposto de que educação superior, pública ou privada, de boa ou de má qualidade, é capaz de promover a ascensão social a todos que nela conquistam um diploma. É um sacrifício que, em geral, as famílias de classe média se obrigam de forma ilimitada, porém, a universidade precisa ser mais que isso. É uma instituição especial que não pode ser concebida como um lugar para a simples obtenção de diplomas que habilitem seus egressos ao mercado de trabalho, na suposição de o portador do diploma de nível superior ascenda necessariamente a posições privilegiadas na sociedade. Isso poderá, certamente, ser uma resultante do ensino superior, mas o fundamental é o ambiente de criação que a universidade  proporciona àqueles que a frequentam, de modo que a imersão nela incentive o surgimento e a consolidação de lideranças técnicas, científicas, artísticas e políticas da nação.

Quanto ao significado estratégico da universidade, para o desenvolvimento das forças vivas da nação, desde a Idade Média articula-se a autonomia como instrumento fundamental para seu avanço enquanto instituição de cultura. Se ela reorganiza mal a cultura, esse mal vai afetar todo o seu entorno, e é a permeabilidade entre universidade e seu entorno que viabiliza sua continuidade enquanto instituição essencial para o desenvolvimento econômico, político e social de uma nação.

A primeira instituição digna do nome de universidade surgida no Brasil, a Universidade de São Paulo (USP), só apareceu em 1934, mas foi a segunda, a Universidade do Distrito Federal (UDF), que encarnou mais profundamente a intenção de modernidade, com a introdução da pesquisa em todas as áreas de atuação, desde o início. No entanto, instalada em 1935, e desfigurada logo no segundo ano, a UDF só conseguiu sobreviver por quatro anos.

Embora a instalação da primeira universidade só ocorresse quase meio século depois da proclamação da República (1989), mais de quarenta projetos de universidade passaram pelo parlamento brasileiro, somente durante o período imperial (1822 a 1899). Isso atesta tanto a resistência dos setores mais conservadores à criação da universidade, quanto à compreensão da parte mais arejada das elites a respeito da necessidade da universidade, para que pudéssemos construir um universo cultural autônomo, a partir da proclamação da independência de Portugal, em 1822.

A UDF foi derrotada em 1939, sufocada pelo burocratismo do Ministro da Educação Gustavo Capanema que, para extingui-la, durante o período fortemente autoritário do Estado Novo, instituído em 1937 pelo governo Getúlio Vargas, usou o pretexto de que a renovadora UDF era uma instituição fora do padrão estabelecido burocraticamente pelo Ministério de Educação e Cultura para a universidade brasileira.

A iniciativa que a essa se seguiu, na direção da universidade de pesquisa entre nós deu-se com a criação da Universidade de Brasília (UnB), em 1961. Considerada o projeto máximo da intelectualidade brasileira, liderado por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, a construção da UnB também seria interrompida de forma truculenta, pelos militares que derrubaram o governo constitucional do presidente João Goulart, em abril de 1964. Semelhantemente ao que se deu com a UDF, o projeto original da UnB foi destruído em 1965, também depois de quatro anos de sua instalação, após memorável resistência de seus docentes e estudantes.

O importante, nos casos da UDF e da UnB, é que a memória desses processos de renovação persistiu, de modo que, mesmo parcialmente, outras universidades, com destaque para as do setor público, foram incorporando, com o tempo, a essência das transformações trazidas pela curta experiência de ambas. Segundo (Ribeiro, 1975), a despeito do lado positivo acima ressaltado, o processo institucional que tentou aproveitar a estrutura da UnB para promover a Reforma Universitária no Brasil, em 1968, foi, sobretudo, uma farsa. Em conseqüência, o sistema privado, à base de instituições isoladas de ensino superior, começou a acelerada progressão que prossegue até os dias atuais.

Outra pergunta crucial de Anísio Teixeira, o educador brasileiro que, desde o final da década de 1920, liderou a luta pela a escola pública universal e gratuita no Brasil, é a seguinte: sem a presença da universidade, quem poderia elaborar ou reorganizar a cultura, e projetar o ensino dessa cultura reorganizada nas instituições educativas brasileiras? Ao formular essa questão, o educador introduz, em sua extensa obra, o importante critério para a análise de padrão educacional, fundado no exame das relações entre cultura, educação, universidade e projeto nacional. Os detalhes desse enfoque encontram-se, desenvolvidos por ele, principalmente em sua obra póstuma Educação Superior no Brasil, surgida em 1989, com importante reedição crítica, a cargo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2005.

Mais recentemente, Berchem (1990) dá uma interpretação para cultura, em conexão com a universidade, que vai no mesmo sentido de Anísio:

As universidades são, em primeiro lugar, e sobretudo, instituições científicas. A questão da função cultural da universidade deve ser situada, portanto, na relação entre cultura e ciência. Se entendo por cultura este processo global de liberação das faculdades humanas no confronto com a natureza, com a vida social, na criação de uma esfera de atividade intelectual que transcende o trabalho e a vida prática, então nesta definição da palavra cultura a ciência está incluída.

No presente, dada a heterogeneidade de nossas instituições ditas de ensino superior, estamos, certamente, cada vez mais desautorizados a usar a expressão universidade brasileira para englobar todas as 2,4 mil instituições públicas ou privadas que, em 2012, atuavam no país, mas iremos insistir em utilizá-lo, talvez movido pela esperança de que, em um longínquo mas desejado dia, a expressão possa fazer algum sentido.

4. Vikings invadem o ensino superior brasileiro

Chega a um limite perigoso de vulgarização e de desnacionalização o fato de que nosso ensino superior que, em 2012, atendeu a 7 024 238 alunos, sendo 5 140 312 (73,2%) no setor privado e 1 883 926 (26,8%) no setor público, esteja cada vez mais dominado por instituições mantenedoras com fins exclusivamente lucrativos.

Anísio Teixeira, que primava por não adotar imprecisos critérios de aferição da qualidade da educação, preferindo a colocação da questão em termos da interação escola-cultura, formula mais uma crucial questão, a saber: que cultura estamos tencionando transmitir, e reorganizar, no próprio processo de sua transmissão, através de nossas atuais instituições de ensino superior? Torna-se preocupante o rumo tomado pelas instituições privadas de ensino superior em nosso país, se observadas à luz da precedente questão formulada pelo educador. Os dados oficiais ainda não consolidados, revelam que, no ano de 2013, o modo de crescimento de nosso ensino superior expressa uma tendência à base do que Naomar Almeida-Filho (2012) chama de empresas vikings[1], que estão a invadir a educação brasileira, aproveitando-se dos incentivos do governo federal, via os programas Prouni e Fies, que têm qualidades, mas que também se prestam a deformações do tipo que a seguir evidenciamos. Afirma Naomar:

Aceito que certamente alguns sujeitos e iniciativas individuais portadoras de altos valores universitários fazem parte eventual e circunstancialmente de empreendimentos corporativos no campo da educação superior. Não obstante, no plano geral, a metáfora se justifica ao considerarmos que se trata de capital de investimento sem bandeira ou nação. Em princípio, esse capital não tem compromisso com valores acadêmicos ou humanísticos, exibindo o objetivo declarado de disputar espaço num mercado bem ou mal já ocupado por empreendedores nacionais.

Verifica-se, de fato, um grande e muito rápido avanço de empresas estrangeiras, com característica viking, no ensino superior privado. De acordo com a nota pública lançada pela UNE e pela UEE-SP, em 26/08/2013:

Hoje três grupos estrangeiros monopolizam o setor: o grupo Estácio, administrado pelo GP Investments, com 330 mil alunos; o grupo Kroton-Anhanguera, do Blackstone Found e Advent Internacional, com 989,7 mil alunos; e a Laureate, do fundo KKR, com seus, 216 mil alunos.

Se somados os números das matrículas nas mãos de grupos estrangeiros, teremos uma marca alarmante. São cerca de 1 546 000 vagas do ensino superior brasileiro, isto é, em torno de 20% do total, em 2013, que estão à mercê dos interesses de empresas multinacionais com ações em bolsas de valores.

Segundo o mesmo documento, verifica-se uma grande escalada de fusões de instituições educacionais privadas brasileiras com empresas americanasvikings, isto é, entidades cuja atuação precípua não é na área de educação, mas que se beneficiam de isenções de impostos federais. As principais preocupações, diante desse quadro, são as seguintes:

1. O que se esperar, no sentido da reorganização da cultura nacional – papel essencial da universidade -, por parte de empresas estrangeiras cuja preocupação principal não é, nem com educação nem com cultura? Torna-se temerário o reflexo da futura atuação cultural, na vida nacional, dos egressos de uma instituição desse tipo, por conta do desenraizamento induzido pelo do próprio processo de formação a que estão submetidos;

2. Em dados de hoje, 20% dos estudantes do nosso ensino superior, cidadãos brasileiros, estão investindo em um futuro incerto, desde que dependem de incertas expectativas advindas de operações em bolsas de valores. Por exemplo, há um ano, as empresas de Eike Batista estavam, aparentemente, em situação excelente. Só que, um ano depois, praticamente o império desmoronou, segundo a imprensa propala. Imaginemos que a manutenção de alguma universidade estivesse na dependência de significativo investimento de uma dessas empresas!

É inadmissível que esteja pairando sobre nossas cabeças o espectro da falência ou de fraudes fiscais de mantenedoras de ensino superior, algo que tem probabilidade relativamente alta de ocorrer, dada o atual quadro de instabilidade econômica mundial. Isto significa que as vidas de um milhão e meio de alunos e suas famílias encontram-se sob situação de grande instabilidade, à custa do incentivo fiscal proporcionado pelo governo;

3. A lógica de um empreendimento mantenedor de educação dessa natureza conduz a um elevado nível de precarização das relações de trabalho, nas categorias de professores e demais profissionais da educação, na medida em que sequer são mais identificáveis os interlocutores, nas negociações entre empregadores e empregados. Sem dúvida, isso que significa um retrocesso inadmissível.

A citada nota conjunta da UNE e da UEE-SP, ainda mais detalha:

O grupo educacional norte-americano Laureate International Universities, controlado pelo grupo de investimentos estadunidense KKR, abocanhou mais uma importante instituição de ensino privada brasileira, a FMU.

Em comunicado divulgado esta semana, o Complexo Educacional FMU, que reúne as Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), Faculdades Integradas de São Paulo (FISP) e Faculdades Integradas Alcântara Machado e Faculdade de Artes Alcântara Machado (FIAM-FAAM), e possui cerca de 90 mil alunos matriculados, assume “protocolo de aliança”, com a multinacional. O valor da negociação foi de R$ 1 bilhão.

Com a compra da FMU, a múlti ultrapassa as 216 mil matrículas no ensino superior em diversas regiões do país, ampliando ainda mais a monopolização do setor em mãos estrangeiras.

A FMU é a 12ª aquisição realizada pela múlti norte-americana desde 2005, quando adentrou no mercado brasileiro a partir da compra da Universidade Anhembi-Morumbi, por cerca de R$ 2 bilhões.

Esse foi o segundo maior bloco de desnacionalização do ensino privado brasileiro, perdendo apenas para a fusão entre a Anhanguera e Kroton em abril deste ano. Com quase um milhão de alunos matriculados, este conglomerado tem como principais fundos de investimento o Blackstone Found e o Advent Internacional.

5. O desafio da internacionalização

A internacionalização, no sentido da interação da universidade brasileira com as de outras nações, será abordada como resultado natural daquilo que Darcy Ribeiro caracteriza como as duas lealdades da universidade, a saber: primeiro, “aos padrões internacionais do ensino e da pesquisa que dão validade, em todo o mundo, aos graus e títulos acadêmicos, por fazê-los corresponder a níveis prescritos de capacitação, de experiência e de saber”; e, segundo, a lealdade “à nação, ao seu povo e a seu tempo”.

No sentido da internacionalização da universidade brasileira, um dos principais objetivos da UnB, em 1961, segundo (Ribeiro, 1975), era promover a interação universitária latino-americana. A internacionalização de nossa universidade começaria, portanto, pelo esforço de montar uma pós-graduação que fosse capaz dar conta da tarefa de formação de professores qualificados para enfrentar os reais problemas do atraso induzido pelo longo processo predatório dos colonizadores na América Latina.

O fato de ter sido constituída há menos de um século, e os empecilhos trazidos pelos golpes de estado, em 1937 e em 1964, não permitiram a plena integração internacional da universidade brasileira, à altura das duas lealdades acima sugeridas por Darcy Ribeiro. A integração iniciou-se, praticamente, por meio de contatos estabelecidos entre orientadores estrangeiros de pesquisa e seus orientandos brasileiros, esses deslocados para o exterior a fim participarem em programas de pós-graduação. A interação internacional, somente dessa forma, inclui o risco de produzir forte dependência, na medida em que a referência cultural dos pesquisadores nacionais passa, em geral, da realidade brasileira para o lugar do exterior em que sua formação foi realizada. E o vínculo, na maioria das vezes com nações mais avançadas, por toda a vida, é cimentado pelos recursos financeiros advindos do prestígio dos orientadores estrangeiros para captá-los, em função de interesses de sua  realidade.

Tanto na criação da USP, em 1934, como da UDF, em 1935, Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, educadores de grande influência nacional, optaram por trazer professores estrangeiros para completar ambos os quadros, todos de muito bom nível. Isso foi muito importante para amenizar o que destacamos no parágrafo anterior, porque foram os estrangeiros que passaram a trabalhar imersos na cultura nacional. De uma forma ou de outra, hoje possuímos áreas tão bem consolidadas que o estabelecimento de intercâmbios com grupos universitários do exterior tende a se dar de maneira autônoma.

Quanto ao intercâmbio internacional estudantil, um setor que ainda deixa a desejar, foi criado, recentemente, o Programa Ciência sem Fronteiras que, a despeito de o governo selecionar alunos para intercâmbios com ênfase nas Engenharias, tem permitido, nos últimos dois anos, a saída de milhares de estudantes de universidades brasileiras para passarem um ano em universidades estrangeiras. Isso certamente dará como resultado o avanço na interação da nossa cultura com a diversidade das culturas internacionais vivenciadas pelos estudantes, com reflexos na construção autônoma de nossos caminhos.

6. Referências

– Almeida-Filho, Naomar. Rankings, Vikings, Masters & Colleges: Dilemas da Universidade Brasileira no Contexto da Internacionalização. In: José Luiz Villar; Remi Castioni. (Org.). O Projeto da UnB e a Educação Brasileira – Diálogos entre Anísio e Darcy. 1ed. Brasília: Verbena Editora, 2012 , p. 218-244.

– Berchem, Theodor. A missão das universidades na formação e no desenvolvimento cultural: a diversidade dentro da universidade. In: A missão da universidade hoje, Cadernos Plurais, Série Universidade, n° 1, publicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1990.

– Ribeiro, Darcy. A universidade necessária. 2ª ed. Revista e ampliada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

– Teixeira, Anísio. Ensino superior no Brasil: análise e interpretação de sua evolução até 1969. Rio de Janeiro: Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2005.

– Whitehead, Alfred North. The Aims of Education and Other Essays, New York: Macmillan, 1929.

[1] Segundo Naomar, “Durante grande parte da Idade Média, os vikings eram o terror das populações costeiras européias, do Báltico ao Mediterrâneo. Predadores cruéis, diferentemente de outros povos ditos bárbaros, não lutavam para conquistar territórios ou em nome de sua religião, mas guerreavam com o objetivo de saquear, fazer escravos e destruir o que não pudessem carregar nos seus rápidos, elegantes e esguios barcos à vela redonda.”

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